PERDIDOS NO ESPAÇO
Não há como cuidar dos pequenos sem lhes proporcionar muitos momentos de raiva, frustração, desconforto e cansaço, assim como alegria, prazer e qualquer outro sentimento.
E quem disse que criar filhos ia ser fácil? Entre a doce imagem da mãe penteando os cabelos da filhinha e a do pai correndo com seu garoto num parque verdejante há muito choro, raiva, birra e tudo aquilo que ninguém gosta de imaginar enquanto espera pelos novos habitantes da casa. Percebe-se isso logo nas primeiras fraldas. Mas ninguém avisou que seria tão difícil lidar com tantos conflitos numa era em que poucos têm idéia clara do que é ser pai e mãe. Aí bate o medo de errar. E muitos vivem evitando o confronto numa perigosa relação de igual-para-igual com os filhos.
Tudo parece muito moderno. Tudo é explicativo e combinado entre pais e filhos para que não se sintam forçados a nada. E também para que não fiquem com muita raiva quando tiverem por exemplo, de encarar suas obrigações cotidianas. No fundo, é tudo mera negação do modelo autoritário de pais e mães das décadas passadas ou simplesmente uma relação às cegas, sem modelo a seguir. Querem evitar atritos para reduzir a necessidade de tomar decisões e as chances de decidir errado. Daí, virão amiguinhos de seus filhos, com muitos “combinados” e um convívio bem menos conflituoso. Por ora.
Com ou sem medo de errar, não há como cuidar dos pequenos sem lhes proporcionar muitos momentos de raiva, frustração, desconforto e cansaço, assim como alegria, prazer e qualquer outro sentimento. E os pais têm de assumir claramente que são os causadores daquilo tudo que seus filhos estão sentindo, por menos lisonjeiro que seja. Esta é uma parte imprescindível no processo de crescimento emocional. Alvos do ódio, da paixão, do ciúme e de toda sorte de sentimentos brutos, os pais permitem aos pequenos elaborar e fundir o que sentem, capacitando-os a ter afeto e desejo para tocar suas vidas com autonomia.
É sempre bom repetir: no conflito é que se cresce. A garotinha aprende que pode odiar o pai quando ele a coloca na cama para dormir, sem que este sentimento destrua aquela pessoa tão querida. Para um adulto, é difícil imaginar que um dia esta questão foi importante em sua vida, mas para uma criança ela é essencial. Tentar evitar ou diminuir os confrontos, sob qualquer pretexto, é privar os filhos de crescer. Aí está a gravidade do que muitos pais-amiguinhos andam fazendo.
Texto extraído da Gazeta do Povo
Abril 1998
David Pontes
Em parceria com o psicólogo Ivan Capelatto
e especialistas convidados.

Nenhum comentário:
Postar um comentário